Nestes tempos mortos em que os Curiosos não estão em actividade, escrevo este post para homenagear a pessoa sem a qual muito provavelmente nós não existiriamos como pescadores desportivos: o meu falecido pai, vítima de cancro aos 42 anos (teria hoje 49).
Tudo começou quando mesmo antes de casar com a minha mãe. Os meus avós tinham uma casa perto do Rogil, a 1 km do mar e junto ao Medo. A primeira vez que o meu pai lá foi de férias, imediatamente se apaixonou pelo "paraíso" que a Costa Vicentina representou para ele. Desde esse tempo, não houve Verão em que as férias não fossem ali. Entretanto nasci eu, e como me lembro bem das férias maravilhosas passadas naquela casinha pequena, sem luz, casas de banho, de tomar banho com água do poço, da figueira, do meu baloiço, de ir comer camarinhas ao Medo... isso acabou quando eu tinha cerca de 10 anos, por a casa estar em evidente degradação e não haver dinheiro para reparação. Hoje em dia a casa está arranjada e é propriedade de primos nossos, o que nos permite ainda ir matar umas saudades de vez em quando.
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A nossa "casinha velha" como eu lhe chamava, antes das reparações. |
Além da casinha, eu adorava a minha praia, e o meu passatempo foi desde muito cedo andar com um balde e um camaroeiro a apanhar camarões, cabozes, caranguejos, pequenos polvos... mas sempre tudo devolvido vivo à água depois de ir mostrar à minha mãe o que tinha apanhado. Era o que eu já gostava na altura: andar nas rochas, nas poças e observar o mar e a natureza.
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Nas praias quase desertas, aprendi a amar e observar o mar, assim como o que nos oferecia. |
Mesmo depois de a casa ter ficado com os nosso primos, não deixámos de ir ao Rogil quando podíamos. Até que no Verão de 2001, quando eu tinha
11 anos, o meu pai decidiu comprar duas canas de pesca, uma para ele e
outra para mim. E foi à aventura sem nada saber, sem ninguém para lhe
ensinar. Eu ainda fiquei mais uns 2 anos nas "poçinhas" antes de passar à pesca mais propriamente dita, mas o meu pai lá tentava sozinho.
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Eu e o meu pai, nas primeiras "pescarias". |
Quando eu tinha cerca de 13 anos comecei a acompanhar o meu pai na pesca em vez de ficar a dar "apoio moral". Lembro-me perfeitamente de ficar radiante com uma pescaria de 3 bogas, ou de uma safiazeca, mas felizmente rapidamente começámos a apanhar alguns peixinhos melhores, principalmente safias e ás vezes umas sarguetas. E foi aí que o meu tio, o outro dos Curiosos, entrou. Abandonou o seu desporto favorito (dormir na praia) e juntou-se a mim e ao meu pai nas pescarias.
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Nós os dois depois de uma pescaria, lá ao fundo. |
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O resultado da pescaria, já corriam um pouco melhor que no início! |
Em 2004, tinha eu 14 anos, foi diagnosticado cancro do estômago ao meu pai, e foi operado de urgência onde lhe foi completamente retirado. Deram-lhe no máximo 6 meses de vida... Mas isso não o fez baixar os braços. Mesmo com tratamentos muito severos de quimioterapia, a vontade de viver era tanta que continuava a ir à pesca e a fazer tudo o que mais gostava. E sempre a descer e subir nas falésias e pedras da Costa Vicentina. O meu pai, com esta força, conseguiu viver mais 2 anos. Dois anos onde ainda conseguimos fazer algumas boas pescarias e passar bons momentos. Mas havia algo que faltava ao meu pai, o seu grande sonho de pesca. Apanhar um robalo. Comprou uma cana para corricar, e dedicou-se, com as enormes limitações que já tinha. Até que em Setembro de 2006, na sua última pescaria, conseguiu apanhar uma bela baila. Um mês antes de falecer, literalmente de fome pois já nada conseguia ingerir. Nunca irei esquecer esse momento nem que viva 1000 anos. A fotografia da baila está exposta na nossa casa "nova" no Rogil, não a tenho aqui. Não foi um robalo a sério, mas para ele e para mim significou isso mesmo. Foi um robalo com pintas.
Quando apanhei o meu primeiro robalo, um ano mais tarde, com 4,3 kg, foi como se tivesse sido ele a apanhar. Naquela meia-hora que estive para por o peixe em seco, com linha 0,28 mm e anzol nº 4 (??), foi a força do meu pai que me permitiu aguentar e ter a paciência e sorte necessária para completar finalmente e de forma inequívoca o seu principal desejo.
Soube um dia mais tarde, pela minha mãe, que antes de falecer o meu pai disse-lhe que estava contente por me deixar todo o material de pesca necessário para fazer vários tipos de pesca. Ele sabia que eu ia continuar a pescar. Hoje ainda me lembro muitas vezes dele quando estou na pesca, é sem dúvida uma fonte de inspiração para mim. Não pude deixar de lhe fazer aqui esta homenagem, em sua memória, para que nunca seja esquecida! Obrigado Pai!